AUDITÓRIO DA JUNTA DE FREGUESIA DE PARANHOS,
12 DE JULHO DE 2012
CONHECER O PASSADO, ANALISAR O PRESENTE, DELINEAR O FUTURO…

Para começar, quero agradecer ao colega Carlos Afonso o convite que me foi dirigido para deixar aqui, hoje, um testemunho da criação, crescimento e amadurecimento do projecto que deu origem ao «Núcleo de Surdos de Paranhos».
Foi em Setembro de 1978 que fui colocada numa secção da Escola Preparatória de Gomes Teixeira, a funcionar na Escola Secundária de Aurélia de Sousa e tive o privilégio de fazer parte de um grupo de jovens professores, interessantes, cheios de energia e de entusiasmo, empenhados em abrir caminhos novos que proporcionassem aos alunos surdos melhores condições de aprendizagem, conducentes a uma vida com sucesso. Sabíamos que estávamos a construir algo de novo. Foi um trabalho fascinante. Criado o embrião do nosso «Núcleo», ele foi transplantado com alunos e professores para a Escola Preparatória (mais tarde EB 2,3) de Paranhos, no momento da sua abertura no ano lectivo seguinte: 1979/1980. Tendo sido um dos primeiros Núcleos de Surdos criados no país, foi um daqueles em que o Ministério da Educação da altura mais investiu.
Os últimos 30 anos da minha carreira foram passados a leccionar Português e Francês nesse Núcleo, num processo contínuo de aprendizagem (nomeadamente com os próprios alunos), num autêntico trabalho de grupo com colegas com os quais partilhava o mesmo sonho de uma melhor educação de surdos em Portugal.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO entrelaçam-se constantemente no nosso pensamento e o que vivenciámos intensamente no passado é importante para analisarmos o presente e delinearmos o futuro.
Hoje olho para trás e vejo muitos momentos bons, momentos menos bons, inúmeras lutas que tivemos de travar pelos direitos dos nossos alunos, incertezas, angústias, algumas mágoas…
Mas são apenas os momentos mais felizes, mais ricos, momentos de oiro que juntos vivemos, que quero aqui lembrar hoje… – só haverá tempo para lembrar alguns, de tantos que aconteceram!
No início, naqueles tempos da construção do nosso projecto, éramos realmente ouvidos. Responsáveis do Ministério, entre os quais quero destacar a Drª Cláudia Fernandes, diziam-nos:
«Vocês, que estão no terreno, é que sabem o que é preciso fazer para que estes alunos possam ter sucesso. Façam as vossas propostas, que nós aprovamo-las…»
Os professores que hoje se empenham em ir melhorando o que já foi construído e em continuar a abrir novos caminhos serão sempre ouvidos com a atenção que merecem por quem tem poder de decisão?
Antes de apresentarmos propostas inovadoras, os nossos alunos surdos estavam «integrados» em turmas de ouvintes em todas as disciplinas e sentia-se – os próprios alunos, os pais, nós – a necessidade de encontrar soluções alternativas para muitos deles.
Assim surgiu a chamada «integração parcial», modelo em que uma grande parte dos jovens com surdez profunda ou severa era agrupada num subconjunto que se inseria num conjunto maior, que era a chamada «turma integradora». Nas aulas de carácter predominantemente teórico, os alunos surdos estavam separados dos seus colegas ouvintes, para poderem beneficiar de condições de aprendizagem mais adequadas.
Continuou, no entanto, a haver alunos em «integração plena»,sempre que esse modelo de participação se justificasse e, mais tarde, uma experiência de «integração flexível», com coincidência de horários dos dois grupos, o que permitia algumas actividades conjuntas, programadas pelos dois professores: o dos surdos e o dos ouvintes.

Eram efectuadas as necessárias adequações curriculares e metodológicas, muitas vezes com recurso a materiais diferentes dos que são usados para os alunos ouvintes, sobretudo para o ensino do português, que alguns professores já ensinavam no fim da década de 70 como segunda língua, por se terem apercebido da maior facilidade com que os alunos aprendiam as línguas estrangeiras. O facto de leccionar às mesmas turmas Português e Francês levou-me rapidamente a essa conclusão e a uma total reviravolta nas estratégias que usava.
Existiu um Centro de Recursos, com sede em Lisboa e, entre 1981 e 1993, uma secção em Paranhos.
Desde o fim dos anos 70, por iniciativa do Ministério da Educação e, principalmente ao abrigo do Acordo Luso-Sueco, foi dada formação intensiva a todos os professores que trabalhavam com estes alunos, a maior parte dos quais do ensino regular. Na nova Escola de Paranhos, a formação já iniciada em anos anteriores intensificou-se. Foi aqui que se realizou, em Setembro de 1981, durante duas semanas, o «Curso de Reciclagem» para professores de Surdos orientado pelo professor sueco Kenneth Eklindh. A maioria dos docentes já tinha participado numa outra acção orientada pelo mesmo professor, na Escola Preparatória da Quinta de Marrocos, em Setembro de 1979 e noutras com professores suecos (e, uns anos antes, também com holandeses).
Mesmo quando ainda não se falava de educação bilingue, íamos progressivamente aprendendo LGP com os alunos e em acções de formação com formadores surdos (desde o princípio da década de 80). Já valorizávamos a língua gestual, (que não tinha ainda o estatuto oficial de língua, embora já o fosse!) cuja importância era muito realçada na formação com os professores suecos e programávamos actividades em que ela era utilizada, nas aulas e fora delas. Observando aquelas mãos a gestualizar, ao compreendermos cada vez melhor a língua dos nossos alunos, íamos tomando consciência da sua riqueza!
Os professores (em todo o país) que vão entrando de novo para este trabalho tão específico sentem com certeza essa necessidade de formação que nós tivemos o privilégio de ter. E será que encontram sempre respostas?
No fim do ano lectivo de 1978 / 1979, foi feita uma avaliação do perfil de cada docente e foram destacados para prosseguir o trabalho com surdos todos aqueles que, na opinião da Coordenadora de então, professora Jacinta Moura, grande dinamizadora do nosso projecto, revelavam capacidade para esta tarefa. Essa medida contribuiu para que nem a experiência adquirida nem a formação recebida fossem desperdiçadas. Os destacamentos continuaram a ser efectuados até ao primeiro concurso para docentes de Educação Especial, em 2006, concurso esse com regras muito discutíveis e extremamente confusas, em que infelizmente – e escandalosamente! – se perderam excelentes professores com formação especializada e com larga experiência.
Terá havido sempre, estará actualmente a haver, da parte dos Serviços Centrais e das Direcções Regionais, esta preocupação tão fundamental de não desperdiçar o saber e a experiência?
Essa obrigação de reconhecer boas práticas e de dar continuidade ao trabalho realizado, ao investimento feito?
No ano lectivo de 1980/81, foi criado, para dar continuidade ao ensino dos alunos surdos que tinham concluído o Ciclo Preparatório, o 7º ano. Formaram-se apenas duas turmas de ouvintes que possibilitassem a inclusão dos alunos surdos. Foi dada prioridade aos ouvintes que já eram colegas deles. Nos anos seguintes, surgiram o 8º e posteriormente o 9º ano. Essa situação foi interrompida durante algum tempo e só uns anos mais tarde a Escola passou a ter o 3º ciclo para todos.
Desde a mudança do Núcleo para a Escola de Paranhos, sentiu-se a necessidade de um pavilhão com condições acústicas adequadas a alunos com vários graus de surdez e pormenores importantes como campainhas luminosas. Verbas do Acordo Luso-Sueco permitiram a construção do Pavilhão D, que ficou concluído em 1983.
Desde o início, a Escola de Paranhos funcionou como «escola de referência», como modelo seguido por outras escolas de todo o país para a criação de formas de atendimento diversificadas.
Foram momentos muito ricos todos os intercâmbios com alunos e professores de outras escolas do Porto (do mesmo Agrupamento e de outras), do país (Coimbra, onde o Dia Nacional da Língua Gestual foi muitas vezes festejado com alunos e professores da Escola Secundária de Avelar Brotero e da EB 2, 3 Silva Gaio, Lisboa, Ílhavo, Penafiel, etc.) e, mais tarde, de França (Paris e Chambéry): reuniões de professores, encontros de alunos, projectos comuns, espectáculos conjuntos…
A correspondência escolar em português, francês (desde 1981) e inglês facilitou esses intercâmbios e criou uma grande motivação nos alunos.
Houve diversas visitas de estudo, por exemplo de alunos do Instituto Nacional de Jovens Surdos de Chambéry ao Porto, em 2003 e dos nossos alunos a Chambéry, em 2004, em que todos aprendemos tanto, em actividades de lazer, mas também escolares, num convívio profundamente rico!
Destaco outro momento alto, que foi a publicação, em 1998, do despacho 7520, que veio legitimar muitas das nossas opções anteriores (postas em prática quase na clandestinidade!) e enriquecer as escolas com a presença preciosa dos formadores /docentes surdos, dos intérpretes e dos terapeutas da fala. A LGP passou a fazer parte do currículo dos alunos, o que era uma reivindicação nossa, já antiga.
A criação das Unidades permitiu uma articulação vertical de docentes dos vários níveis de ensino e as reuniões, presididas pelo colega Carlos Afonso, passaram a ser espaços de reflexão com a qualidade que todos desejávamos. A educação de surdos libertou-se durante algum tempo da amálgama em que o DL 319 tinha transformado a Educação Especial.
No âmbito de dois Círculos de Estudos sobre o tema «Comunicação e Linguagem – a Especificidade da Surdez», da responsabilidade da colega Fátima Ramos, que funcionou nas reuniões da Unidade de Apoio a Alunos Surdos de Porto
Ocidental, tivemos a oportunidade de visitar o Instituto Jacob Rodrigues Pereira da Casa Pia de Lisboa, com observação de aulas e participação numa acção de formação (em 2000) e, no ano seguinte, a Universidade Gallaudet, em Washington, estabelecimento de ensino destinado a surdos que engloba intervenção precoce (a bebés e aos respectivos pais, em casa e depois na própria Universidade) e várias escolas (para crianças e jovens de vários níveis etários) e diversos cursos superiores. Aí,foi organizado um programa de formação destinado ao nosso grupo.
Visitámos também escolas da Suécia (Örebro, com formação para o nosso grupo e Estocolmo) em 2002, e de França (Chambéry e Paris, várias vezes), sempre em busca de novos saberes.
Centenas de alunos Surdos passaram pela Escola de Paranhos.
Uma das nossas preocupações permanentes foi o respeito pelo direito de cada um à sua diferença e identidade, como membro de uma comunidade linguística própria. Valorizamos a diversidade de modelos de atendimento. A filosofia de inclusão que assumimos foi-se progressivamente aproximando do próprio conceito de surdez, sobretudo no aspecto sociolinguístico.
Foi o PAAS, Projecto de Atendimento a Alunos Surdos elaborado por iniciativa do colega Victor Meireles, reformulado regularmente por um grupo de professores e aprovado anualmente em Conselho Pedagógico, que, durante alguns anos, serviu de «regimento» do Núcleo.
Depois desta pequena retrospectiva em que procurei salientar alguns dos momentos da Escola de Paranhos, olho, do momento presente, para um futuro, onde seria importante que os professores definissem em grupo metas a atingir: metas realistas, mas ambiciosas. Que todos fossem reformulando os seus projectos,criando estruturas dinâmicas e flexíveis. Que sobretudo todos, pais e professores, acreditassem nas capacidades destas crianças e destes jovens, só diferentes na forma de apreender o mundo e de comunicar. Que cada aluno surdo, com elevada auto-confiança, construísse o seu projecto de vida com dignidade. Que cada escola se orgulhasse sempre da presença destes alunos que, com a sua diferença, a enriquecem.
Termino lembrando hoje de uma forma muito especial o projecto «As nossas formas de comunicar: os surdos e os outros», com os nossos alunos surdos, alguns aqui hoje presentes e uma turma de ouvintes da Escola EB 2,3 Frei João de Vila do Conde, alunos do colega Pedro Carvalho, que culminou num espectáculo de Arte Dramática neste mesmo Auditório, em Março de 2004, em que a poesia em LGP foi o ponte forte… e em que os alunos surdos tiveram uma actuação brilhante. O meu muito obrigada aos três colegas que, comigo, sonharam e concretizaram esses momentos:ao Pedro, da Escola de Vila do Conde, à Ana Maria Barreira, aqui presente, ao Carlos Ferreira, também tão presente entre nós, embora de outra forma.

Júlia Maria Freire Rocha
(professora de jovens surdos entre 1978 e 2008)